Ser é algo que está tão distante da visão da nossa cultura ocidental industrializada que se reflectirmos na palavra, somos muitas vezes impelidos a um propósito que carrega em si mesmo algo que fazer. O que é preciso para Ser?
É preciso estar aqui, presente no momento, sentindo cada minuto, cada respiração, cada movimento em plenitude. É preciso viver agora, sem fugir do desconforto, sem resistir ao que se nos apresenta, sem nos refugiarmos na mente. É preciso habitar o corpo, e não utilizá-lo como um apêndice da mente. É preciso não fugir do que há, do que está a acontecer.
Fomos impelidos a acreditar que a verdadeira espiritualidade estava no renegar do que este mundo nos apresentava e escapar para a imaterialidade do não-manifesto. Contudo, as grandes tradições ensinam-nos que tudo o que há, tudo o que vemos, tocamos, cheiramos, ouvimos, percebemos, é uma manifestação do SER, da VIDA, do INEFÁVEL MISTÉRIO para o qual inventámos muitos nomes, mas que não tem nome.
Todo o mundo é uma manifestação do SER, do Um: do vazio do Ser nasce a multiplicidade das formas, e o Um reconhece-se nos muitos, através da Compaixão. Esta é a essência do Feminino.
E todas essas formas são, na realidade, vazias, pois nas muitas apenas está o Um. Nesta tomada de consciência, alcançamos a Sabedoria. Esta é a essência do Masculino.
No entanto, o grande paradoxo do SER é que teve de se manifestar para se reconhecer...! Igualmente, também o ser humano só reconhece a sua natureza divina através do mundo da matéria. Ao contrário do que certas correntes nos fizeram crer, o caminho para Deus é através do Humano, do corpo, da vivência na matéria. O segredo, é imbuir essa matéria de espírito: ligar Céu e Terra. Como fazê-lo?
Através do Coração e da sua Inteligência. Só o coração vê o essencial, o que está vivo, o que é verdadeiramente importante. Então, há que buscar o Coração. Há que buscar o Graal. Esta é a Jornada do Herói: partir em busca da Essência, da Beleza, da Verdade... E, ao alcançá-la, depois de tanta luta com os demónios interiores que o habitam, coloca-se-lhe a questão: estará disposto a partilhar com os outros aquilo que descobriu? E se disser que sim, a sua vida tem finalmente sentido, pois soube buscar-se, reconhecer-se e dar-se.

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