Há dias em que, sem estar à espera,
repentinamente, uma nuvem escura a envolve... O coração estremece, endurece,
dói... A emoção quer brotar, as palavras tornam-se duras e afiadas, os
pensamentos bombardeiam-na com os cenários mais escuros, com os diálogos mais
ríspidos. Perde o equilíbrio e cai na Sombra.
Surge a inevitável pergunta: porquê? “Porquê a
mim? Porque sinto isto? Porque acontece aquilo?” Infindáveis perguntas, busca
impossível por uma resposta lógica e racional para algo que a transcende.
Sente a injustiça da vida, das situações, da
forma como se sente tratada, das palavras que lhe dizem, dos insultos que lhe lançam,
velados ou explícitos. Surge a ideia de traição. Traição que brota de uma
confiança que se perdeu, que foi quebrada. “Não é justo.” Não é justo ter de
sofrer, ser rejeitada quando se entregou, ser ferida quando o único que fez foi
dar o seu coração. Não é justo sentir-se assim. Não é justo o abandono que
imagina, não é justo o ressentimento que a invade, não é justa a vergonha de
que se apercebe ao ver o monstro da Sombra devorar-lhe o coração com o manto
pesado do ciúme.
Cai-se num abismo negro, onde as lágrimas são
o alivio mais rápido, e o isolamento o único desejo que tem. Só quer entrar na
sua toca e aí ficar, lambendo a ferida, esperando que passe. E passará?
Ou voltará novamente, mais forte, com mais
poder, ferindo mais fundo ainda?
Lá dentro, no fundo do coração que bate ainda,
dorido e encolhido, uma luz estremece e diz-lhe que se não olhar para o que
está por trás dessa ferida, escondido na Sombra, não poderá seguir em frente. E
enfrentará, uma e outra vez, mais ataques, mais dores, mais sofrimento.
Algo que lhe diz que tem de respirar, sem
parar, sentindo o momento. Observar, como se não fosse o seu corpo, como se não
fossem os seus sentimentos nem as suas emoções. Observar os pensamentos que caiem
em catadupa, uns atrás dos outros, numa corrida infernal para ver que consegue
ganhar o pódio da Raiva, a medalha de ouro do Ódio.
“Respirar. Observar. Respirar. Observar.
Respirar. Observar”. Quase como um “mantra”, deixa que as palavras se repitam mecanicamente.
Permanece no escuro, respirando, observando,
sentindo. O que começou de forma tão brutal, começa a perder força. E, de
algures, surge uma sensação de alívio, de conseguir respirar fundo mais uma
vez. Rende-se a este estado.
A mesma luz trémula que vinha do fundo do seu
coração dorido, está agora a expandir-se. Ilumina o rancor, derrete o ciúme,
desvanece a insegurança. Sente que descobriu a ligação. No meio de todo o caos
do ego, encontrou a sua paz. “Aceita. Aceita. Aceita”, diz-lhe essa luz
profunda, numa compaixão que nem sabia existir. As lágrimas vão caindo, mas são
agora compostas de outra água. E assim fica, num silêncio tão vasto quanto
pleno, deixando-se curar de dentro para fora...