“As cerimónias tribais de nascimento,
iniciação, casamento, enterro, investidura e por aí em diante, servem para
traduzir as crises de vida e os feitos de vida de cada indivíduo para formas
impessoais clássicas. Elas revelam-no a ele mesmo, não como esta ou aquela
personalidade, mas como o guerreiro, a noiva, a viúva, o padre, o chefe; ao
mesmo tempo, ensaiando para o resto da comunidade a velha lição dos palcos
arquetípicos.” Joseph Campbell, O Herói das Mil Faces
O papel dos rituais nas nossas vidas é de
imensa importância. Não por questões de tradição ou de aparência social, mas
pelo que influi no nosso inconsciente e no conhecimento de nós mesmos. Estes
arquétipos estão sempre presentes ao longo da nossa existência, acessíveis a
cada um de nós consoante o guião que a Vida nos vai propondo. Umas vezes
desempenhamos um papel, outras desempenhamos outro. São apenas vestes que
usamos, mas aos olhos da comunidade, eles confundem-se com a nossa identidade,
e assim formatados, nós próprios nos julgamos pelas roupagens que usamos.
No entanto, quando a nossa voz interior
desperta, e nos iniciamos na Jornada do Herói, em nós despertam as perguntas e
as dúvidas sobre quem somos. É aqui que saímos da tribo em busca de nós,
exilando-nos e dando o primeiro passo nessa Jornada. Damo-nos conta de que as
vestes, os papéis, são tão somente isso. E buscamos a Verdade, buscamos a nossa
essência, o ser profundo que sentimos ser.
Estas são as grandes crises da vida, aquelas
que nos obrigam a mergulhar fundo em nós, lutando contra monstros e demónios, em
busca do Graal, o cálice sagrado, o que detém a resposta final. E, tal como nos
diz Campbell, quando nos desidentificamos dessas roupagens, nunca mais as
poderemos levar tão a sério, nunca mais seremos os mesmos. É aqui que chegamos à
gruta onde está o cálice, e aqui chegados, entramos também nessa etapa de renúncia
das ilusões do mundo – maya – rejeição dos condicionamentos de uma vida, da
prisão em que vivíamos.
Mas há agora que fazer o trajecto de volta,
levando aos outros a Verdade recém-reconhecida. E nesse caminho, outras
batalhas e outros dragões nos esperam, até ao portal final: a integração.
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